Texto da leitura dramatizada de 'Valão'
- levantestextuais
- 28 de dez. de 2025
- 8 min de leitura
Afundado no valão que atravessa o bairro encontro o corpo do tio. Desfigurado.
A pedra presa às costas poderia servir para preencher o buraco de uma das paredes da quitinete onde vivo com mamãe. Naquele espaço existe apenas um vão de ventilação colado ao teto. Será que a pedra que o amarra serviria para tapar o buraco que mamãe cavou numa das paredes daquela quitinete? Talvez não deixasse usar com esse propósito, mesmo os cômodos sendo de paredes sem janelas.
Aos 21 anos vai embora sem poder se despedir. Nem Sísifo teve castigo pior.
Quando chove o valão transborda. Na cheia destrói as próprias margens, afoga tudo ao redor: casas, memórias, sonhos.
Convivo com uma galinha de estimação, magrinha, branca, de penas rosadas. Bato com as mãos no colo, ela pula e se assenta.
Os que nasceram em apartamento com rua de asfalto não sabem, mas galinhas ronronam como gatos. Ela é assim, ronrona no colo quando acaba de comer o milho ou cansada de ciscar a terra. É parente das galinhas de vó, que já teve oito gatos em casa. Filhotes miam, outros sobem na mesa e lambem os pratos de quem acabou de comer, até ficarem absolutamente limpos. Avó diz que não tem problema, basta lavar a louça depois.
Um primo mais velho de mãe pergunta se teatro é aquele lugar em que se cuida de crianças. - Não… Respondo estranhando.
Dois anos depois tem parte da perna amputada por não saber cuidar de um ferimento que começou na sola do pé.
Mãe tem um galinheiro, mas as galinhas de vó são mais levadas, cismam em bicar os ovos das amigas de penas para beber o conteúdo. A velha tem logo uma ideia: colocar molho de pimenta na casca dos ovos - Agora vão cantar bonito! Diz. E dito e feito. Pela última vez bicam os ovos e, depois de tanto cacarejar, já com a goela ardendo, desistem.
Dias depois, na volta da escola, levo marmita pra tio almoçar. Ele e o avô estão num terreno, construindo uma casa. Franzino, tento ajudar a capinar o mato com uma enxada. Mas vô para tudo o que está fazendo, chama o filho e diz, em tom de chacota - Parece que tá matando uma cobra.No fim do dia, tio se queixa com a mãe, minha vó. Diz que a comida estava muito apimentada, não gostou. A veia estranha e fala que não colocou pimenta na comida.
- Quem foi então?
Chamam para perguntar e confirmo o malfeito com intensão nobre:
- Coloquei, vovó. Coloquei porque queria ver ele cantando bonito!
Nesse dia mãe cozinha a galinha magrinha, de penas brancas e rosadas, mas não consigo comer.
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Ah, como gosto da famosa praça do Colégio Memorial quando tenho 13 anos! Tanto pelo futebol quanto pelas meninas que passam por lá no horário de saída do colégio. Elas eram de escola particular e nós do ensino público. Sempre que vamos lá olhamos as garotas, de longe. Dois virgens sem coragem de chegar em alguma delas.
Certa vez, saio da escola e vou à casa desse amigo do colégio, que sempre vai à praça com a gente, pra ele descolorir meu cabelo. Uma nova tonalidade capilar é também uma descoberta. Ele coloca um monte de produtos na minha cabeça e a gente vai jogar bola na rua. Depois de brincar, voltamos pra tirar aquela química toda. Entramos na sala, temos uma conversa empolgante, até que ele decide colocar um filme pornô. Um daqueles DVDs piratas, que se comprava em bancas de viadutos de estação de trem. Só nas periferias tinha isso. Fico sem jeito na hora, e em seguida ele também percebe que não pega bem fazer aquilo. Mas confesso que acho um tesão ver como a mulher do filme era vigorosa. Volto pra casa umas sete e pouca da noite. Loiro. Mamãe, desesperada, me encontra na praça perto de onde a gente mora. Ela vai atrás de mim pela cidade toda perguntado onde estou. Nesse dia acho que ela estaria em casa só a noite, então não imagino que viesse causar algum problema chegando mais tarde.
— Que porra de cabelo é esse? Ela pergunta, com muita educação.
Na semana seguinte, outro amigo do Memorial conta que mamãe passara por lá, parando o futebol e perguntando pra rapaziada onde estou. Agora, adulto, percebo que as diferenças do valão para o Rio vão além de ter mais água pura saindo da torneira, estátuas homenageando pessoas, placas com nome das ruas e menos paredes feitas de tijolos furados. Aqui a amizade infelizmente também custa mais caro, e esse valor geralmente mede-se em dinheiro.
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É dia 4 de agosto. Faltam nove para o Dia dos Pais. Surgem pensamentos de dar vazão a fantasia de reconciliar com esse sujeito que, na hora que notei a data pensei ser mais adequado chama-lo apenas de “genitor” em vez de pai.
— Papai já tem 85 anos. Será que vai morrer brigado comigo?
Ao falar com o seu outro filho descubro que o velho está com as veias do coração entupidas. Passa mal na loja e precisa ser levado às pressas ao hospital. Rosto esbranquiçado. O médico diz que é preciso fazer um exame: cateterismo cardíaco. Um cateter é introduzido em uma das veias a fim de reter informações do quão obstruído está o caminho que o sangue flui até o órgão vital.
A função da veia é garantir que o sangue retorne ao coração. É a tubulação que religa o interior do sujeito a si mesmo pelo sangue, esse líquido que, dependendo do saneamento, pode ou não entupir. Somos um tubo de espaço vão que precisa ser preenchido de tempos em tempos.
Ligo querendo saber sobre o estado de saúde e ele atende com a clássica dificuldade auditiva.— Boa tarde!— Oi, pai, sou eu.— Quem é? (como quem diz — Como é que é?)— Oi, pai! Sou eu! (Som de telefone batendo. Silêncio.)Por mensagem a funcionária diz que desliga o telefone esbravejando.Se nem o sangue está conseguindo passar pelas artérias e chegar ao coração, quem dirá afeto. É um comum dia de trabalho em Duque de Caxias. Saímos para ir aos Correios buscar alguma encomenda. Tenho uns 13 anos, magro, com braços finos.
Encontramos um amigo, este nos cumprimenta:
— O rapaz aí tá grande, hein, seu Manel. — Tô ensinando ele a trabalhar. Tem que trabalhar. — Até aos 18 ele aprende, Manel. — Não, comigo ele já tem que estar pronto aos 16 já!
Pai pergunta de mim durante o telefonema com mamãe.
- O pititim tá bem?
Depois de adolescente, com os braços menos finos e calças mais largas, passa a me chamar de pititão.
- Agora que cresceu uns dois metros virou o pititão.
Quando ele me mandou embora de casa, ainda adolescente, senti muito medo, tal qual atravessar na rua de olhos fechados. Sinto culpa ao tropeçar.
Ouvia dentro da cabeça aquela voz:
- Bem feito, seu viadinho… você foi trocado na maternidade! Isso não é filho meu. Seu merda. Isso não é meu filho. Papai repetia.
Ainda assim acabo me tornando um pouco como ele. Quase todos os amigos dizem que tenho jeito de velho. Resmungão, caseiro. Interiorizo não só julgamentos, mas também gestos. É divertido me perceber distraído imitando modos e trejeitos dele. Por acidente, às vezes atendo uma ligação da mesma maneira, dizendo - Pronto.Pai sempre se gaba da atitude que teve quando soube que mamãe engravidou. Deu dinheiro e disse:
- Vá comprar as roupas do menino.
- Você foi a raspa do tacho, diz um camarada dele.
Papai já tinha 61 anos quando nasci. Batizou com um dos nomes de cristo, à revelia de mamãe. Se afastou por motivos pessoais, porque sou vagabundo, porque fico usando brinco e essas calças de viado. Que não quero saber de trabalhar feito homem. Que inventei esse negócio de fazer teatro. Essa é a história dele.
Agora, o sentimento de abandono é parte da minha história e dela eu faço o que bem entender.
— Me deixa morar contigo?
Últimas palavras. Carro. Pai.
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Quase senti o gosto da última que passou, em direção ao bebedouro. Ela se levanta, caminha suavemente, balançando as ancas, da esquerda para a direita. Sem esforço, como um pêndulo. Hipnotizando. Redonda, curva. Lisa e sedosa. Fez eriçar um frio no cabelo, subindo do abdômen, passando pela coluna.A aula ainda está na metade. Jantei em torno de uma hora atrás, mas... o que resta é escrever, em segredo.
Nós dois na cama, vendo videos no Youtube. Fazemos amor, beijando na boca, dizendo que ama.Você, com esses olhões, sorriso largo, olha e vê em mim o que vejo de ti, tapando uma falta que não pode preencher.
Dois meses depois volta pra mim, no período fértil. Marcamos um filme. Consegui te encontrar de novo. É época de festival de cinema francês. Paramos em frente ao Estação Net Botafogo. Olha com cara de quem quer falar alguma coisa, mas não se arrisca. Espera passivamente a ação, com a mesma maneira de olhar, oblíqua e dissimulada. Ciumento e compulsivo, te beijo. Penso sobre o porquê de você ser tão passiva na vida... Tento examinar esse momento, o motivo da falta de atitude, já que claramente havia um clima no ar, demonstrava desejo pelo olhar e postura. Talvez porque seja mais fácil se responsabilizar na passividade. Quero dizer, responsabilizar o outro por ter sido ele quem fez a ação, e se posicionar como imparcial. Ou melhor, não se posicionar, já que ser imparcial é não assumir uma posição. Quem toma atitude tem um tipo de responsabilidade, a da ação. Enquanto quem o aceita tem a responsabilidade de ter permitido que acontecesse. Parece que sempre espera a oportunidade de dizer “Mas você quem fez isso”, “Eu estava isenta, não fiz nada. Você quem me fez fazer isso” culpando o outro pela ação dele, e não se responsabilizando pela inércia. No fim é só manipulação.
Aceita o beijo, beija de volta, parando resistente em seguida.
— O bom é sempre muito bom, mas o ruim é também muito ruim.
Diz. Clichê, né?
Tentamos algum diálogo, digo que reconheço responsabilidades no término e ouço o quão difícil está sendo a perda da sua cadela de estimação. Pergunto se gostaria de conhecer onde estou morando agora. Aceita, mas diz que irá embora em seguida. Fala como se não fosse perceber o blefe. Repetimos isso por mais outra noite antes dela sumir.
Será que está procurando outro?
Marcamos de nos encontrarmos no domingo à tarde. Não fala comigo até as 16h, fico esperando a mensagem enquanto preservo a dignidade, em vez de novamente pedir afeto com alguma mensagem do tipo - Ainda quer me encontrar? como quem pergunta - Oi, ainda me ama? A gente ainda é um casal? Quer cumprir com os compromissos ou prefere não?
Me manda mensagem. Marcamos um bar. Encontro de beijos e confissões. Mas chega a hora de ir.
- Me deixa ir junto.
Último beijo. Uber. Sai.

Essa foi uma apresentação cultural de fragmentos da obra “Valão” com duração em torno de 30 minutos, desenvolvida no projeto de Iniciação Artística da UNIRIO “Levantes textuais e Territórios de vazio”, que aconteceu na data 23\10\2025.
A obra conta histórias de um menino que está às voltas com o valão próximo de sua casa, sob a ponte que ele atravessa para ir à escola. Histórias rememoram a vida do autor, que compartilha causos autoficcionais ora em primeira pessoa, ora em terceira, de maneira a refletir como o território em que se vive molda o sujeito e cria uma narrativa. É uma obra literária que começou a ser escrita pelo autor de maneira fragmentada a pelo menos cinco anos atrás, mas que só tomou forma dentro do projeto de cultura. Esse momento de compartilhar trechos do primeiro livro seria muito importante na trajetória artística e acadêmica do discente bolsista.


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